Raízes da Organogramática

14fev07

A primeira vez que escrevi um blog eu estava na quinta série. Tinha muito tempo livre, uma cabeça lotada de abstrações imaterializáveis e poucos amigos. Se fosse pelo tempo livre, eu poderia apenas gastá-lo jogando bola, brincando, ou maltratando animais como qualquer menino das vilas da zona-sul. Mas foi a cabeça borbulhante e a falta de amigos que me fez começar a escrever um blog aos 10 anos de idade.

Devo mencionar que a internet ainda não existia no Brasil, e que meu blog, apesar de servir assim como a maioria dos blogs atuais, ao ímpeto exibicioinista de escancarar para toda a civilização ao alcance da técnica o extrato de nossas curtíssimas vivência, não era sequer digital: um caderninho verde, de capa dura, umas 100 pfolhas bem fininhas. Não estava, tampouco acessível a qualquer um a qualquer momento, tinha hora certa para ser publicado diarimente: antes do recreio, na insossa aula de português de colégio público que eramos todos obrigados a engolir para assegurar nossos futuros.

Tinhamos uma atribuição bem específica: era parte do programa da disciplina de português escrever diariamente sobre temas pré-definidos. 20 linhas, no mínimo, só pra cumprir tabela. Ninguém gostava muito, preferível seria gastar um pouco de tempo ao ar livre, abaixando as calças dos outros meninos, dando um pesco tapa aqui e ali, ou mesmo submetendo alguma criança menor a qualquer desejo sexual ingênuo longe dos olhos das autoridades. No dia seguinte, a contragosto, e tomados por uma sensação muito semelhante àquela de quando éramos obrigados a entoar o hino nacional, enfileirados no pátio antes das aulas, todos abriam seus cadernos para o visto da professora. Ainda pra cumprir tabela os que sentissem uma vontade irresistível de aparecer eram convidados a ler seus textos em voz alta para os colegas na sala de aula, a maioria dos quais não dava muita bola pra idéia, quando muito tendo escrito seus textos na tarde anterior, como quem decora regras matemáticas muito abstratas: 1 vez 1 igual a 1, 1 vez 0 igual a 0. De 40 alunos entulhados por sala, sempre tinham cerca de 5 empolgados de cada vez, que abriam os cadernos e faziam o Broadcast de suas reflexões. Eu era um deles, com o maldito caderninho verde.

No começo minha redação era mais convencional, especialmente no que dizia respeito ao tratamento dos temas. O que se esperar de crianças daquela idade, criadas a HeMan e Cocktail (aquele do Mielle), senão uma reprodução do ambiente em que viviam (aquele que elegeu Collor no ano anterior)? Naquele momento só havia uma diferença entre eu e as outras crianças: enquanto a maioria delas escrevia 20 linhas sobre cada tema, eu os tomava como pretexto para escrever 5 ou 6 páginas. Era um volume absurdo, mas como já foi dito antes, o tempo era livre e poucos eram os amigos: escrever era um espécie de terapia ocupacional. Aplicava à escrita a mesma minúcia que costumava aplicar ao desenho.

E desenhar, já que toco no assunto, não era segredo nenhum pra mim. Eu era considerado um prodígio tanto na família quanto na escola, nunca havia parado de desenhar desde que peguei no lapis, e por esse motivo, tinha muita habilidade. Aulas de educação artística eram só um espaço para a submissão dos menos afortunados artisticamente às minhas habilidades fabulosas. Lembro de ser pago nessa época pelas outras crianças para fazer uns desenhos. Nenhuma fraude infantil, não fazia o trabalho de educação artística para os colegas, ou qualquer coisa assim brilhante, apenas os divertia. Isso dava algum prestígio, mas ainda era o tipo de prestígio de um bom serviçal, como o do arquiteto que decora a sala da família feliz. Desenha uma buceta: pois não! E la estava a representação da bucetinha nos limites hiperrealistas possíveis para um menino de 10 anos, que só conhecia esse tipo de imagem através de Pornografia Softcore.

Naquela época, quando comecei a ler minhas próprias palavras em voz alta, passei a entender a maior diferença entre uma folha desenhada e uma escrita: a segunda permitia efeitos especiais sem mudar de caneta. Também permitia, com movimento muito mais econômicos gerar no outro um movimento maior que o meu, o movimento da mente. Não havia a necessidade de caprichar muito na representação, as palavras marcavam a imagem dentro da cabeça do outro independente do meu capricho nos contornos. Não percebia, então, que palavras escritas também tinham contornos, que intuitivamente os meus eram bem mais caprichados que os da maioria, e que esse tipo de sensibilidade me traria tantos problemas.

Um dia, ao fim da leitura, Regina, a professora de português, anunciou o tema da redação para o dia seguinte: medo. Era só mais uma tarde normal, tanto que não chego a me recordar particularidades do momento em que escrevi, nem qualquer intenção revolucionária. Foi um acidente, daqueles cuja origem necessita do trabalho da perícia para ser identificada.

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One Response to “Raízes da Organogramática”

  1. 1 thata

    ahahahahahahaha
    Despertou um súbito interesse pelo blog alheio… Curiosidade materna, já que não sei muito bem o que faço com o meu.
    Adorei o texto. De verdade.


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